Cresce interesse dos brasileiros por stablecoins, aponta estudo da Chainalysis

Um estudo recente da Chainalysis mostrou que os brasileiros vêm se interessando cada vez mais por transações com stablecoins, como o Tether (USDT). As informações são do 2024 Geography of Cryptocurrency Report.
Segundo a pesquisa, o valor total das transações desse tipo de moeda cresceu +207,7% em relação ao ano passado, em exchanges locais. Portanto, aumentou bem mais do que o das transações com Bitcoin, Ether e altcoins.
Segundo o estudo, esse fenômeno parece ter relação com a demanda dos brasileiros por proteção contra as oscilações do real em relação ao dólar. Afinal, as plataformas estariam buscando atender a esse anseio dos usuários com stablecoins atreladas ao USD.
O fenômeno coloca o Brasil atrás apenas da Argentina em volume de transação de criptos e em predominância de negociações de stablecoins. No entanto, o país ainda lidera o ranking de adoção de criptomoedas na região, considerando outros fatores relevantes.
Stablecoins como reserva de valor e meio de pagamento
As bolsas e corretoras fintech do Brasil vêm oferecendo stablecoins de dólar com base no seu potencial de reserva de valor.
Essas moedas têm valor pareado com o do dólar americano. Portanto, permitem que os usuários protejam seus fundos das oscilações do real sem precisar comprar dólar diretamente. Além disso, a negociação de stablecoins nas exchanges locais pode ser mais prática e acessível que adquirir a moeda norte-americana.
As stablecoins também vêm servindo como meio de pagamento para transações entre empresas. Ou seja, oferecem uma alternativa aos canais oficiais de câmbio para negócios B2B. Não à toa, esse tipo de ativo já corresponde a cerca de 70% dos fluxos indiretos de bolsas locais para bolsas globais.
Ou seja, os valores saem de carteiras em exchanges domésticas para plataformas fora do país, o que inclui contas em nomes de outros titulares.
Esse movimento segue a lógica da tokenização de ativos, que permite a muitas empresas superar a falta de liquidez e economizar em taxas ao negociar com o resto do mundo.
Atividade atraiu a atenção da Circle
O crescimento desse mercado no Brasil, assim como o interesse geral em produtos e serviços digitais, vem atraindo o interesse de grandes players de criptomoedas.
Um caso recente é o da Circle. A empresa chegou oficialmente ao país em maio deste ano, trazendo na mala um importante produto: o USDC. Ou seja, trata-se de uma das principais stablecoins do mercado.
Segundo um porta-voz da empresa, a regulamentação do mercado local foi importante para esse movimento em direção ao Brasil.
“O envolvimento da Circle com o Brasil ocorre em um momento de maior certeza regulatória, políticas e iniciativas pró-inovação, com a expectativa de mais regras favoráveis em um futuro próximo. Estamos estabelecendo parcerias com empresas regionais líderes para lançar produtos de ativos digitais e permitir acesso quase instantâneo, de baixo custo e 24/7, ao USDC, para usuários brasileiros. E estamos fortalecendo nossa presença local para atingir uma base de usuários ainda maior. Como resultado desse compromisso com a região e das parcerias vigentes, a quantidade de usuários que fazem transações com USDC na região já cresceu exponencialmente.”
Uma das parcerias importantes que a Ripple estabeleceu no Brasil foi com o banco BTG Pactual. Afinal, esse acerto vem ajudando na distribuição de USDC para bancos e empresas locais.
Quando a parceria com o BTG foi anunciada, o CEO da Circle, Jeremy Allaire, destacou o potencial do mercado brasileiro:
“Existem muitas oportunidades poderosas no horizonte quando o ecossistema fintech do Brasil converge com a plataforma de dólar mais acessível do mundo.”
O foco da Ripple no país são justamente as empresas que buscam uma forma simples e barata de adquirir dólares sem recorrer ao mercado tradicional.
Economia brasileira ainda impõe desafios
Apesar do otimismo em relação à adoção de stablecoins no Brasil, o relatório da Chainalysis destaca que há uma série de obstáculos para um processo ainda mais rápido.
Por exemplo, a cotação do real variou bastante em relação ao dólar este ano. Portanto, a adoção de stablecoins pode não ser uma opção tão atraente para quem deseja ter mais liquidez e teme eventuais prejuízos.
Em vez disso, como já vimos, as stablecoins têm sido uma prioridade das empresas para suas transações corriqueiras. Também é útil como reserva de valor para quem teme os efeitos da inflação.
Além disso, mesmo com boas taxas de crescimento econômico recente, não há tanta renda disponível para consumo. Isso ocorre principalmente porque o processo inflacionário dos últimos anos manteve elevados os preços de produtos e serviços.
Isso significa que novos produtos financeiros podem não ser uma prioridade. Ao mesmo tempo, sobra menos dinheiro para quem deseja investir ou manter uma reserva de segurança — inclusive, em outra moeda.
Apesar disso, o contexto brasileiro também está repleto de oportunidades e casa bem com muitas das principais aplicações das stablecoins. Por isso, limitações de renda e eventuais desconfianças com a economia não chegam a tornar o mercado local menos promissor.
Argentina lidera em transações de criptos na região
O relatório da Chainalysis mostra o Brasil atrás apenas da Argentina no que diz respeito ao movimento de criptomoedas na América Latina.
Isso se deve à longa batalha contra a inflação e a desvalorização do peso argentino. Afinal, boa parte dos cidadãos do país vê nas criptomoedas uma forma de proteger suas economias.

A situação não melhorou nesse sentido com o presidente Javier Milei. Em 2024, a Argentina passa por um momento delicado. Grande parte da população vive abaixo da linha da pobreza. E o poder aquisitivo dos argentinos despencou após uma série de reformas do governo.
Com a intenção de promover uma “terapia de choque” no país, Milei realizou uma forte desvalorização do peso argentino. Também cortou subsídios de energia e transporte.
Historicamente, os argentinos buscam se proteger dos momentos de crise recorrendo ao dólar. Há até pouco tempo, devido à cotação artificial do peso, a população recorria ao “dólar blue” — ou seja, ao câmbio paralelo. Afinal, ele refletia uma taxa informal, não oficial, e mais próxima do valor real da moeda argentina.
No entanto, até mesmo a crise gera oportunidades para o mercado de criptoativos. O acesso a elas vem garantindo uma forma mais prática para os argentinos se protegerem da instabilidade interna e da moeda doméstica fraca.
O estudo da Chainalysis demonstra como a transação de stablecoins cresceu no país desde o final de 2023. O valor total do mercado mais que dobrou entre fevereiro e março de 2024, e manteve-se acima dos US$ 50 milhões por mês desde então.

Ainda segundo o relatório, as stablecoins correspondem a 61,8% do volume de transações de criptos na Argentina é de 61,8%. Isso a coloca um pouco acima do Brasil nesse quesito (59,8%). Além disso, posiciona o país acima da média global (44,7%).

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