O Bitcoin pode ajudar a resolver a crise climática? Especialistas afirmam que sim — Entenda como

Frequentemente criticado pelo alto uso de energia, o Bitcoin agora pode ser redimido com uma solução para a crise climática. Será? É o que dizem especialistas em meio ambiente, amparados por dados recentes que sugerem que o BTC remove mais CO2 da atmosfera do que emite. Desse modo, a criptomoeda seria mais benéfica para a natureza do que se imaginava.
Vamos aos argumentos. Em resumo, os gases com efeito estufa são grandes vilões no cenário de emergência climática que vivemos atualmente. É o caso, por exemplo, do dióxido de carbono e do metano, que provocam alterações climáticas. A maioria desses gases vem de atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis.
O Bitcoin entra nessa história por conta do processo de mineração, que consome bastante energia. De acordo com o relatório Bitcoin Electricity Consumption Index, da Cambridge University, o Bitcoin usou 121,13 terawatts-hora de eletricidade em 2023.
Em outras palavras, isso equivale a mais energia do que a necessária para manter a Holanda, com cerca de 17 milhões de pessoas. Os dados são da International Energy Agency.
Porém, o investidor Daniel Batten, do setor de climate tech, afirma que o Bitcoin é, atualmente, a indústria alimentada por energia mais sustentável do mundo. Isso porque cerca de 57% da energia para minerar Bitcoin vem de fontes renováveis.
Reserva de valor
Segundo Batten, que também é ambientalista, a primeira fonte de energia para a mineração de Bitcoin é hidrelétrica. Ele afirma que o Bitcoin, assim como os veículos elétricos, substitui opções com maior intensidade de emissões. No caso, substitui o ouro como reserva de valor e os serviços bancários como métodos de transação financeira.
Batten afirma, ainda, que ao utilizar Lightning Network, solução de segunda camada que permite realizar transações mais rápidas e baratas, o Bitcoin pode escalar mais transações, por uma fração da pegada de carbono.

Vilão ou mocinho?
Por um lado, os dados da Cambridge University são criticados por se basearem em antigos bancos de dados, que excluem energias renováveis do mix utilizado pelo Bitcoin.
Por exemplo, um estudo de 2019 da University of Hawaii at Manoa estimou que a mineração de Bitcoin poderia elevar a temperatura global acima de 2°C. Isso num cenário em que as Nações Unidas estabeleceram a meta de limitar esse aumento a 1,5°C.
Além disso, outro relatório bastante citado, publicado em 2023 pela United Nations University, utilizou dados referentes a 2020-2021 para concluir que “67% da energia consumida na mineração de Bitcoin foi produzida por fontes de energia fósseis”.
No entanto, de acordo com Oleksandr Lutskevych, CEO da exchange CEX.io, mesmo que se considere esses dado, o Bitcoin ainda mostra uma menor dependência de combustíveis fósseis do que a média.
Escala vs. uso de energia
Outra argumentação contrária ao Bitcoin veio do cientista de dados Alex de Vries publicou, em 2018, um paper que ganhou bastante atenção da mídia. Segundo ele, as emissões de carbono do Bitcoin poderiam ser medidas por transação.
O objetivo seria mostrar que o uso de energia pelo Bitcoin poderia sair de controle, na medida em que as transações escalassem. Entretanto, sua teoria acabou sendo refutada. Segundo Daniel Batten, a teoria falhou porque, na verdade, o Bitcoin pode escalar bilhões de transações sem aumentar o uso de energia ou as emissões.
Ele declarou, ainda, que o papel de vilão ecológico atribuído ao Bitcoin impediu que aproximadamente US$ 65 trilhões de capital intistucional fossem aplicadas nessa indústria.
Cresce eficiência da mineração de Bitcoin
Para Mason Jappa, CEO mineradora de Bitcoin Blockware Solutions, uma melhor forma de comparar o uso de energia pelo Bitcoin com relação a outras redes seria mensurar o valor armazenado na rede, e não as transações processadas.
“As mineradoras processam, sim, transações para a rede. Porém, elas também contribuem largamente para a segurança geral da rede, consolidando o principal uso do Bitcoin, que é ser uma reserva de valor”, defendeu Jappa.
Ele enfatizou, ainda, que a energia consumida pelo Bitcoin é bem menor em comparação do que em outros setores. Como exemplo, ele citou o mercado de títulos dos Estados Unidos, o mercado imobiliário, ouro e “todas as empresas do [índice] S&P 500”.
Nesse sentido, uma pesquisa publicada por Michel Khazzaka em 2022 constatou que o setor bancário tradicional usava 4.981 TWh de eletricidade por ano. Em outras palavras, isso representa 40 vezes mais energia do que o Bitcoin.
Outro argumento de defesa é que, além de o setor estar migrando para fontes de energia sustentáveis, a eficiência da indústria de Bitcoin também está aumentando.
De acordo com o Bitcoin Mining Council, o índice que mede a quantidade de emissões de carbono liberadas por cada unidade de energia utilizada caiu 50% nos últimos quatro anos.

Além disso, o poder computacional usado para processar transações num mecanismo proof-of-work de uma blockchain aumentou quatro vezes.
Segundo Lutskevych, CEO da CEX.io, essa melhoria se deve “ao crescente uso de energias renováveis e expressivos avanços nos hardwares de mineração.
Carbono negativo
Batten participou do Proof-of-Work Summit, realizado na Alemanha no fim de setembro. Na ocasião, ele destacou como o BTC está se tornando uma rede com emissões negativas de carbono.

Uma das áreas mais promissoras para a mineração de Bitcoin são aterros sanitários, grande fonte de metano (CH4). Trata-se de potente gás de efeito estufa, que pode ser convertido em eletricidade e devolvido às redes elétricas como energia renovável.
De acordo com Batten, cinco empresas estão minerando Bitcoin com energia gerada por metano de aterros sanitários. Ele acrescentou, ainda, que cerca de 29 entidades também estão utilizando fontes de energia “carbono negativo”.

Batten acrescentou que o investimento em geração de energia por meio de aterros sanitários pode ser mais viável para mineradores que buscam reduzir custos operacionais.
Como exemplo, ele citou a Grid Share, uma empresa de computação de inteligência artificial e mineração de Bitcoin, baseada na Nova Zelânida. A companhia estaria planejando usar energia gerada a partir de um aterro sanitário na América do Sul para minerar Bitcoin.
Quando estiver operando totalmente, a empresa deve evitar a emissão do equivalente a 114.000 toneladas de dióxido de carbono. “O Bitcoin pode resolver alguns dos mais difíceis desafios ambientai do nosso tempo”, reforçou Batten.

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